Thursday, October 1, 2020
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 6 - Héctor Germán Oesterheld e Hugo Pratt
Sunday, September 27, 2020
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 5 - Guido Buzzelli
O ponto não está tanto em sublinhar os modos de refazer as categorias tradicionais em Buzzelli, mas na recusa das próprias categorias tendo em vista uma nova concepção da banda desenhada.
Escrever isto, em cima do acontecimento (em 1967!), revela uma clarividência muito próxima do milagre; mas há mais: Mario Bologna continua e explica como as estruturas narrativas (leio Vladimir Propp nas entrelinhas) são radicalmente diferentes e como a realidade (ou a ideologia, se, pela minha parte, quiser ser mais preciso) aparece em surdina enquanto que "Para Buzzelli, pelo contrário, a realidade é ponto de partida e ponto de chegada". Brilhante, simplesmente, brilhante!...
Guido Buzzelli foi céptico e pessimista politicamente numa época em que a esquerda mais impôs, um pouco por todo o lado, ideias de revolução e de "Maios de 68". Foi um desenhador ímpar que utilizou o seu meio de eleição, a banda desenhada, para enfrentar e dar corpo aos seus fantasmas, ou, como disse o próprio, às suas "dúvidas e medos". Não vou insistir em caminhos críticos já trilhados por mim e por outros; vou antes terminar este post com algo que, parece-me, nunca foi dito: Guido Buzzelli tinha um pensamento visual simbólico. Provou-o ao criar as suas quimeras e alegorias (o Agnone, por exemplo). É dessa forma que temos de descodificar as estátuas que pontuam a sua obra. Só desse modo se entendem: não há objecto mais alegórico do que uma estátua num local público:
Passaggio pedonale, 1991
No quadro acima, que esteve presente na exposição do Palácio Galveias e em que Grazia Buzzelli viu uma manifestação do bulício da vida (foi o que me disse, na altura), eu vejo algo de mais sinistro: peões cabisbaixos e apressados andam, como marionetas, sob o comando de bonecreiros representados pelas estátuas as quais, aqui, são tudo menos decadentes. E lá estão o condottiere e o anjo, duas faces da mesma moeda. O facto de estarem à direita (o militarismo) e à esquerda (as boas intenções; lobos com pele de cordeiro) significa que não há saída para a rat race.
À maneira de pós-scriptum ainda proponho mais uma ilustração de Guido Buzzelli. Fica aqui como homenagem ao fundador da Editorial Presença, Francisco da Conceição Espadinha:
Violon dans le métro, 1981
Tuesday, September 22, 2020
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 4 - Matt Marriott
Mundo de Aventuras Nº 30 V Série [segunda série], 25 de Abril de 1974
Deveria talvez começar este post de outra forma, com uma imagem diferente a encimá-lo, por uma ponta diferente do novelo, mas a tentação foi mais forte. Se fosse necessário, e estou certo de que não é, chamaria a atenção de quem lê para a data na capa da publicação acima: 25 de Abril de 1974.
Nesse dia os portugueses tinham, certamente, preocupações bem distantes do consumo de banda desenhada. Esse tempo foi, para os que tinham acordo de si na altura, o da tomada de consciência de que tudo iria mudar. Felizmente a terra, para aludir ao título em epígrafe, durante o ano e meio conturbado que se seguiu, não foi tão selvagem como podia ter sido (e algumas mortes, mesmo assim, há a lamentar, mesmo para além do tal Verão Quente).
Leitor assíduo da revista Mundo de Aventuras a personagem Matt Marriott não me era estranha. Nestes meados da década de 1970, no entanto, sob a batuta de Vitoriano Rosa, e agradeço a Jorge Magalhães o seu comentário esclarecedor neste mesmo blogue, a revista sofreu uma lavagem de cara radical. Passou de uma publicação em que se podem encontrar todas as modalidades possíveis de desrespeito pelo material publicado a uma revista, pelo menos, normal...
A série inglesa dos jornais, "Matt Marriott", publicada mais exactamente no jornal The Evening News, de Londres, entre 1955 e 1977, escrita por James Edgar e desenhada por Tony Weare, atraiu-me desde o princípio pelo desenho muito próprio, aparentemente descuidado do desenhador. A este propósito pode ver-se em baixo uma prancha de outro artista inglês que sempre admirei pela mesma razão. Trata-se de um estilo que, tal como o de Arturo del Castillo, que vimos no post anterior, muito deve às técnicas de xilogravura de topo, comuns nos jornais e revistas do virar dos séculos XIX e XX. A diferença dos ingleses para o chileno é que estes tinham um estilo muito mais solto. Foi precisamente este contraste entre precisão e dinamismo que me atraiu e me atrai ainda (posso também citar o estilo de outro natural das Ilhas Britânicas, Eddie Campbell).
O Western, ou género do Oeste, muito em voga na cultura de massas entre as décadas de 1940 e 1960 (com a década seguinte ainda vigente, mas a decair), ao mesmo tempo que vendeu muito foi extremamente maltratado na banda desenhada. Para se fazer uma ideia de como foi popular, as revistas de banda desenhada baratas eram conhecidas genericamente, em Portugal, por "livros de cobóis". Mas digo "maltratado" porque o género, tal como o dos super-heróis, aliás, prestava-se às mil maravilhas ao maniqueísmo do macho alfa que tudo resolve, contra tudo e contra todos, na luta do bem contra o mal. Talvez seja por isso que Matt Marriott, ao apresentar personagens e situações complexas, se destaca, com a ressalva de uma ou outra excepção, de entre todos os outros Westerns da banda desenhada.
Um dos primeiros a reconhecer e a explanar essa diferença no papel, preto no branco, foi José de Matos-Cruz. Cito um excerto de um dos seus textos (Antologia da BD Clássica nº 20, 1988. pág. 2):
Existe em Matt Marriott desde logo, uma densidade dramática jamais superada, neste género de histórias. Notável ao nível da progressão, na breve incidência das peripécias patéticas, na caracterização contraditória e humana das várias personagens. Quer tomando a série no conjunto, onde deparamos uma penetrante toada odisseica; quer apreciando um simples episódio, com toda a sucessão e carga de conflitos que se agudizam, até uma inevitabilidade trágica, sentimo-nos embargados pela opressão e cruel determinismo que ronda todos os participantes em cada aventura.
Pela minha parte escrevi introduções para um par de reedições recentes de Manuel Caldas, vários textos na Internet, neste blogue inclusive e um artigo de fundo, de que se pode ver abaixo a primeira página:
Wednesday, September 9, 2020
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 3 - O Príncipe Valente
Não tenho um local ou episódio específicos para relatar, mas muito me ligou, nos anos de adolescente, jovem adulto, e, até, não tão jovem ao Prince Valiant de Harold R. Foster. Recordo sobretudo a prancha dezanove; essa chegada a Camelot que tanto fascina o jovem príncipe e que se pode ver, abaixo, num restauro de Manuel Caldas, o maior especialista mundial da série.
Saturday, September 5, 2020
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 2 - Carl Barks















