Sunday, September 27, 2020

Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 5 - Guido Buzzelli


Guido Buzzelli, Zil Zelub, Fevereiro de 1973 (Charlie Mensuel # 38 - # 44, Março - Setembro de 1972)

Disse no post anterior que a minha admiração pela obra que iria ser alvo deste se deu a dois tempos, mas não foi exactamente isso que aconteceu. Não sei se adquiri Zil Zelub de Guido Buzzelli logo em 1973 ou um pouco depois, provavelmente, um par de anos depois, mas não me lembro de o livro me ter causado nenhuma impressão particular nessa altura. Ao deixar a casa paterna, para ir viver em casa própria, deixei alguns livros de banda desenhada para trás, este inclusive. Numa visita muito posterior (décadas?, não posso precisar...) peguei naquele objecto algo estafado, conforme se comprova acima (tratava muito mal os livros, essa é que é a verdade), que vinha até mim desde um passado longínquo e não podia acreditar no que lia: tive imediatamente a sensação de que estava perante um clássico, uma obra cimeira da arte da banda desenhada. 

(Na segunda aparição que a Editorial Presença faz a encabeçar esta série de posts, abro um parentesis para expressar a minha gratidão por esta ter sido um pilar muito importante na minha formação adolescente. Foi a Editorial Presença, fundada no mesmo ano em que nasci, que me deu a conhecer a história da filosofia e das ideias políticas, a história das literaturas de vanguarda,O Signo de Umberto Eco, o teatro, de Shakespeare a Jean Genet, Jean-Paul Sartre e Samuel Beckett e a poesia de Ruy Belo, Paul Éluard e Maiakovski. Ver no que se transformou, no mês da morte do seu fundador, não sei o que mais me provoca: se asco, se desgosto, se tristeza... E nada disto tem absolutamente nada a ver com quem, agora, gere os destinos da empresa. Que entenda quem quiser...)

A partir do embate inicial a minha ligação a Guido Buzzelli nunca se interrompeu, mas, por vários motivos, não foi o frutífera que poderia e deveria ter sido. É verdade que o nome do autor italiano foi aparecendo aqui e ali neste blogue, mas tirando as duas intervenções que se documentam abaixo (uma delas repetida, por ser tradução do inglês para o italiano), e são de monta na minha consideração, mais nada há a registar, infelizmente... a não ser, talvez, o lugar proeminente na exposição de arte original da minha colecção em Beja, de que falei no post anterior.


The Comics Journal #244, Junho de 2002


I Labirinti, Outubro de 2002 (tradução do inglês por Alessandro Bottero)


Imagem do convite para a inauguração da exposição no Palácio Galveias que comissariei com Grazia Buzzelli sendo, na altura, entrevistado para um programa cultural da RTP (breves comentários esses que nunca vi, diga-se de passagem). A exposição esteve integrada no 6º Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada. O designer da exposição, Jorge Silva (agradeço a info ao Marcos Farrajota), ampliou e integrou um texto meu na cenografia. O evento decorreu de 2 de Junho a 3 de Julho de 2005.

Não sou propriamente adepto de ir em busca de origens, mas, a julgar pelo artigo da revista The Comics Journal e pela entrada na Wikipedia sobre o romance gráfico, nota de rodapé número oito, em que remete para um texto meu, nota de rodapé número dois, ao que parece, proclamei Guido Buzzelli como "the first self-conscious author in comics" (o primeiro autor de banda desenhada consciente de o ser). Agora prefiro não ser tão acertivo, mas uma coisa é inegável, antes do catálogo  do Terzo Salone Internazionale dei Comics, em baixo, que decorreu de 30 de Junho a 2 de Julho de 1967 em Lucca, na Itália, não vejo ninguém que lhe possa disputar o lugar. 


Comics Almanacco, Junho de 1967

Eppur... basta ver a capa do Comics Almanacco, da autoria de Francesco Bonvicini, mais conhecido por Bonvi, para verificar que o romance gráfico, como dizemos agora, La rivolta dei racchi, de Guido Buzzelli, é um corpo estranho integrado num contexto que ainda não sabe como acolhê-lo. É verdade que nem tudo é o que parece: a ilustração de Bonvi é claramente paródica, criada desde um ponto de vista underground. E é também verdade que Mario Bologna começa, no texto de introdução à obra, por comparar Spartak, o protagonista da história, alter ego de Buzzelli, com Superman e Diabolik para chegar à conclusão de que estava perante algo de diferente. Ninguém disputa isso, mas são precisamnente as comparações e as paródias que denunciam um tempo de transição, em que ainda é muito forte a presença do que foi e muito ténue o que vai ser. Ainda assim, seria injusto para com o prefaciador se não o citasse e se não lhe elogiasse a argúcia:
O ponto não está tanto em sublinhar os modos de refazer as categorias tradicionais em Buzzelli, mas na recusa das próprias categorias tendo em vista uma nova concepção da banda desenhada.

Escrever isto, em cima do acontecimento (em 1967!), revela uma clarividência muito próxima do milagre; mas há mais: Mario Bologna continua e explica como as estruturas narrativas (leio Vladimir Propp nas entrelinhas) são radicalmente diferentes e como a realidade (ou a ideologia, se, pela minha parte, quiser ser mais preciso) aparece em surdina enquanto que "Para Buzzelli, pelo contrário, a realidade é ponto de partida e ponto de chegada". Brilhante, simplesmente, brilhante!...

Guido Buzzelli foi céptico e pessimista politicamente numa época em que a esquerda mais impôs, um pouco por todo o lado, ideias de revolução e de "Maios de 68". Foi um desenhador ímpar que utilizou o seu meio de eleição, a banda desenhada, para enfrentar e dar corpo aos seus fantasmas, ou, como disse o próprio, às suas "dúvidas e medos". Não vou insistir em caminhos críticos já trilhados por mim e por outros; vou antes terminar este post com algo que, parece-me, nunca foi dito: Guido Buzzelli tinha um pensamento visual simbólico. Provou-o ao criar as suas quimeras e alegorias (o Agnone, por exemplo). É dessa forma que temos de descodificar as estátuas que pontuam a sua obra. Só desse modo se entendem: não há objecto mais alegórico do que uma estátua num local público:


"I labirinti", Il Fumetto N. 7, Setembro de 1972 (Charlie Mensuel #29, Junho de 1971, mas assinada num ano marcante, 1968)

Numa simples vinheta que pode passar despercebida na voragem da leitura encontramos um nível de descodificação mais especificamente narrativo na interacção das personagens e um nível simbólico nos elementos restantes. É verdade que estamos num mundo pós-apocalíptico, mas mesmo que imaginemos uma reconstrução da estátua, numa espécie de filme mental em rewind, verificamos que os fios não estão ali por acaso. Estátuas em sítios públicos são homenagens, mas também são marcas de poder. Colocar instalações electricas tão perto de monumentos que deveriam ser respeitados significa que estes perderam a vigência; outros senhores reinam agora, numa luta sem fim... Por outro lado, há algo de perverso no facto de que a estátua represente um anjo: símbolos do bem, em Buzzelli os anjos são, no seu absolutismo axiológico, tão terríveis e despiedados como os demónios. Uma vez que estes últimos representam as pulsões, Guido Buzzelli até tinha mais simpatia por eles e representou-se em ilustrações como demónio mais do que uma vez...
 

Passaggio pedonale, 1991

No quadro acima, que esteve presente na exposição do Palácio Galveias e em que Grazia Buzzelli viu uma manifestação do bulício da vida (foi o que me disse, na altura), eu vejo algo de mais sinistro: peões cabisbaixos e apressados andam, como marionetas, sob o comando de bonecreiros representados pelas estátuas as quais, aqui, são tudo menos decadentes.  E lá estão o condottiere e o anjo, duas faces da mesma moeda. O facto de estarem à direita (o militarismo) e à esquerda (as boas intenções; lobos com pele de cordeiro) significa que não há saída para a rat race.

À maneira de pós-scriptum ainda proponho mais uma ilustração de Guido Buzzelli. Fica aqui como homenagem ao fundador da Editorial Presença, Francisco da Conceição Espadinha:

Violon dans le métro, 1981

Tuesday, September 22, 2020

Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 4 - Matt Marriott

 

Mundo de Aventuras Nº 30 V Série [segunda série], 25 de Abril de 1974

Deveria talvez começar este post de outra forma, com uma imagem diferente a encimá-lo, por uma ponta diferente do novelo, mas a tentação foi mais forte. Se fosse necessário, e estou certo de que não é, chamaria a atenção de quem lê para a data na capa da publicação acima: 25 de Abril de 1974. 

Nesse dia os portugueses tinham, certamente, preocupações bem distantes do consumo de banda desenhada. Esse tempo foi, para os que tinham acordo de si na altura, o da tomada de consciência de que tudo iria mudar. Felizmente a terra, para aludir ao título em epígrafe, durante o ano e meio conturbado que se seguiu, não foi tão selvagem como podia ter sido (e algumas mortes, mesmo assim, há a lamentar, mesmo para além do tal Verão Quente). 

Leitor assíduo da revista Mundo de Aventuras a personagem Matt Marriott não me era estranha. Nestes meados da década de 1970, no entanto, sob a batuta de Vitoriano Rosa, e agradeço a Jorge Magalhães o seu comentário esclarecedor neste mesmo blogue, a revista sofreu uma lavagem de cara radical. Passou de uma publicação em que se podem encontrar todas as modalidades possíveis de desrespeito pelo material publicado a uma revista, pelo menos, normal... 

 A série inglesa dos jornais, "Matt Marriott", publicada mais exactamente no jornal The Evening News, de Londres, entre 1955 e 1977, escrita por James Edgar e desenhada por Tony Weare, atraiu-me desde o princípio pelo desenho muito próprio, aparentemente descuidado do desenhador. A este propósito pode ver-se em baixo uma prancha de outro artista inglês que sempre admirei pela mesma razão. Trata-se de um estilo que, tal como o de Arturo del Castillo, que vimos no post anterior, muito deve às técnicas de xilogravura de topo, comuns nos jornais e revistas do virar dos séculos XIX e XX. A diferença dos ingleses para o chileno é que estes tinham um estilo muito mais solto. Foi precisamente este contraste entre precisão e dinamismo que me atraiu e me atrai ainda (posso também citar o estilo de outro natural das Ilhas Britânicas, Eddie Campbell).


"Buck Jones and the Wonder Gold Finger!", Cowboy Comics Nº 79, Julho de 1953 
Argumentista desconhecido e desenhos de Eric Parker.

O Western, ou género do Oeste, muito em voga na cultura de massas entre as décadas de 1940 e 1960 (com a década seguinte ainda vigente, mas a decair), ao mesmo tempo que vendeu muito foi extremamente maltratado na banda desenhada. Para se fazer uma ideia de como foi popular, as revistas de banda desenhada baratas eram conhecidas genericamente, em Portugal, por "livros de cobóis". Mas digo "maltratado" porque o género, tal como o dos super-heróis, aliás, prestava-se às mil maravilhas ao maniqueísmo do macho alfa que tudo resolve, contra tudo e contra todos, na luta do bem contra o mal. Talvez seja por isso que Matt Marriott, ao apresentar personagens e situações complexas, se destaca, com a ressalva de uma ou outra excepção, de entre todos os outros Westerns da banda desenhada.

Um dos primeiros a reconhecer e a explanar essa diferença no papel, preto no branco, foi José de Matos-Cruz. Cito um excerto de um dos seus textos (Antologia da BD Clássica nº 20, 1988. pág. 2):

Existe em Matt Marriott desde logo, uma densidade dramática jamais superada, neste género de histórias. Notável ao nível da progressão, na breve incidência das peripécias patéticas, na caracterização contraditória e humana das várias personagens. Quer tomando a série no conjunto, onde deparamos uma penetrante toada odisseica; quer apreciando um simples episódio, com toda a sucessão e carga de conflitos que se agudizam, até uma inevitabilidade trágica, sentimo-nos embargados pela opressão e cruel determinismo que ronda todos os participantes em cada aventura.

Pela minha parte escrevi introduções para um par de reedições recentes de Manuel Caldas, vários textos na Internet, neste blogue inclusive e um artigo de fundo, de que se pode ver abaixo a primeira página:


International Journal of Comic Art Vol. 9, Nº 1, Spring 2007
O redactor-chefe do International Journal of Comic Art  é o Dr. John Lent, um dos decanos dos Comic Studies. O carinhosamente apelidado IJOCA existe desde 1999 e continua a publicar-se...

Na lista das histórias de banda desenhada que considero mais importantes "Matt Marriott" aparece em segundo lugar com o story arc "Isepinal, The Apache". Continuo a valorizar, portanto, a série como há mais de quatro décadas. Por outro lado é exasperante verificar que séries menores merecem tratamento de eleição, com valores de produção óptimos em reedições de luxo, enquanto Matt Marriott tem de ser lida em edições paupérrimas. Da já citada história Isepinal the Apache retirei, da única edição com um mínimo de dignidade, em francês, hélas, a vinheta shakespereana abaixo (defeitos, apesar de tudo, evidentes: o aspecto descuidado da legendagem e a qualidade da reprodução que deixa algo a desejar):


Retro BD, #12, 1 de Março de 1979 (18 de Dezembro de 1969)
Na edição do Mundo de Aventuras a última tira, à qual a vinheta acima pertence, nem sequer foi publicada.

Tal como me aconteceu com a obra que vai ser alvo do post seguinte, e a fazer fé no que escrevi no Message Board do Comics Journal, a minha admiração por Matt Marriott deu-se a dois tempos. Eis, traduzido, um excerto do meu post do dia 19 de Setembro de 2003: "Eu, tal como toda a gente, esqueci-me de Matt Marriott durante as últimas duas décadas [...]. Ao discutir neste fórum a putativa grandeza da série Blueberry (o melhor Western de todos os tempos!) disse para comigo: não pode ser; Giraud é um grande artesão, mas a série tem uma escrita medíocre (são bandas desenhadas infantis padronizadas). [...] Foi então que me lembrei de Matt Marriott."

Perante a mesma obra o jovem adolescente embrenhou-se nas histórias e apreciou o desenho, enquanto que o crítico adulto mergulhou na complexidade e nas contradições do que significa ser humano, conforme se espelha nestas páginas que, como costumo dizer, se fossem celulóide em vez de papel, seriam equiparadas ao melhor de John Ford ou Howard Hawks. Assim, para citar Powder Horn, acima, ninguém se interessa...

Termino com duas imagens: a primeira é uma fotografia da autoria do malogrado Jorge Machado Dias. Faz parte de uma reportagem fotográfica que este realizou em 2012 aquando da exposição da minha colecção de arte original durante o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja:


"Shannon Gunfighter", arte original, 1961 

Por fim, uma das vinhetas mais extraordinárias da história da banda desenhada com a mesma legenda, mas título do jornal corrigido, que utilizei na primeira vez que a subi neste blogue:


Light and shadows and shades of grey. "Gospel Mary", The Evening News, 1973 (arte original da colecção de Alberto Soares)

Wednesday, September 9, 2020

Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 3 - O Príncipe Valente

 


Clássicos Da Banda Desenhada #1, Príncipe Valente, Dezembro de 1972

Não tenho um local ou episódio específicos para relatar, mas muito me ligou, nos anos de adolescente, jovem adulto, e, até, não tão jovem ao Prince Valiant de Harold R. Foster. Recordo sobretudo a prancha dezanove; essa chegada a Camelot que tanto fascina o jovem príncipe e que se pode ver, abaixo, num restauro de Manuel Caldas, o maior especialista mundial da série.


Príncipe Valente 1937-38 - O Início, Dezembro de 2005 (19 de Junho de 1937)

A vinheta tem tudo para agradar a um adolescente que, ainda por cima, gostava das histórias da história, sobretudo da Idade Média. Isto porque há na imagem espectacularidade e um virtuosismo gráfico evidente. A delicadeza do traço no segundo plano provoca um efeito de perspectiva aérea que, juntamente com a perspectiva linear (o tamanho diminuto dos habitantes do castelo) e a ocupação do espaço quase todo da vinheta, nos diz que, apesar da distância a que ainda se encontra, o palácio-fortaleza não perde nada da sua imponência. A linha oblíqua que vai dos cavaleiros às nuvens, no canto superior direito, cria um movimento ascendente que, apesar da mole imensa, dá leveza e elegância à composição. A linguagem corporal das personagens mostra-nos três atitudes diferentes: Sir Negarth, sabiamente colocado na sombra de Gawain (a indicar algum sentimento depressivo), ligeiramente curvado, mostra que, sendo prisioneiro, tem preocupações muito para além da contemplação do sublime; por sua vez Gawain, com o tronco vertical e o queixo levantado, mostra orgulho no monumento e na cultura, a dele próprio, que criou tal maravilha; enquanto o jovem Val, praticamente em pé sobre os estribos e em movimento de recuo, demonstra surpresa e assombro perante o espectáculo que tem diante de si.

Claro que esta é uma Idade Média de fantasia, muito mais próxima dos delírios românticos de Ludwig II (esta Camelot faz lembrar Neuschwanstein) ou da pacotilha dos cenários de  Hollywood do que de qualquer assomo de reconstituição da realidade histórica. Por outro lado, como se pode ver pelo cotejo das duas imagens acima (a primeira também representa Camelot), a consistência não era propriamente uma preocupação...


Envelope milagrosamente salvo do caixote do lixo (não se falava ainda em reciclagem) que, algures na década de 1970, conteve um exemplar do jornal do Cuto vindo de Lisboa para o assinante número 415. Ao viver no interior, ainda é pelo correio que o assinante número 415 continua a receber muita da cultura que consome. 

A julgar, tanto pela data do álbum da Editorial Presença, cuja capa está reproduzida acima, como pela primeira aparição do Príncipe Valente no jornal do Cuto, a 17 de Maio de 1972, com a vinheta em que surge Camelot a 23 de Setembro, esse parece ser o ano do meu encontro com a personagem e, mais do que isso, pode também ser uma data simbólica para marcar o início do meu fascínio pela banda desenhada norte-americana dos jornais.


The Smithsonian Collection of Newspaper Comics, 1977

Se bem que publicado na década anterior, foi no início dos anos de 1980, já estudante na ESBAL (hoje, FBAUL), que encontrei o calhamaço (26 x 35 x 4 cm) The Smithsonian Collection of Newspaper Comics na montra da, se não me engano, livraria do jornal O Século, entre a tabacaria Mónaco e o café Nicola, hoje, livraria Leya no Rossio. Perdi-me durante muitas horas nestas páginas que me deram a conhecer a riquíssima tradição da banda desenhada norte-americana dos jornais e me fizeram sonhar com as reedições em fac-simile que só nos últimos tempos se tornaram mais ou menos correntes. Deve ser por isso que me provoca uma grande azia ver oportunidades perdidas por editores que reeditam sem o menor respeito pelo material que publicam e pelos seus leitores.



Em cima: "The King's Musketeers and The Man in the Iron Mask", Lion, 22 de Fevereiro de 1964
Em baixo: "Os Mosqueteiros do Rei Em O Homem Da Máscara de Ferro", jornal do Cuto #45, 10 de Maio de 1972
Se bem que na edição em álbum Roussado Pinto, editor da Portugal Press, fez uma tradução mais fiel das lacónicas palavras de Leonard Matthews, na edição do jornal do Cuto o escritor policial Ross Pynn entrou numa das suas divagações habituais, com laivos de nacionalismo em tempos de guerra colonial, ainda por cima. A legendagem feita à máquina de escrever (com um erro ortográfico!) também não tem justificação e desfeia o conjunto. Idem o jornalismo amarelo, em baixo.

Três momentos principais marcam a minha admiração pela série de Hal Foster. Durante um tempo, enquanto adolescente, tive por hobby ampliar vinhetas de banda desenhada para o tamanho de posters A2, o que, diga-se de passagem, me ajudou muito a ter uma ideia mais clara das proporções. Ampliei três vinhetas da série "Princípe Valente", as duas de Camelot e uma terceira, bem como outra vinheta retirada do romance gráfico Tarzan, O Filho Das Selvas de Burne Hogarth, livro que importei do Brasil. De todo esse trabalho resta-me, hoje, uma ampliação da parte superior da última vinheta da adaptação do romance de Alexandre Dumas, O Homem Da Máscara de Ferro, desenhada pelo chileno, radicado na Argentina, Arturo del Castillo para a revista inglesa Lion e reproduzida acima nas versões original e portuguesa. No segundo momento fiz um trabalho extenso sobre a série para a cadeira de Estética III do curso de Pintura da ESBAL sob a orientação do professor António Sena (Toé), ao que parece, agora habitante da ilha do Pico. O terceiro momento é, para mim, o mais importante: marca, no dia 17 de Março de 1990, o encontro com uma reportagem de João Paiva Boléo, na revista do jornal Expresso, sobre um tal de Manuel Caldas. Daí até escrever, graças à admiração comum que tínhamos pelo príncipe, para a morada que se indicava em rodapé, iniciar uma amizade que se vai desenvolvendo à distância e começar a escrever para o fanzine Nemo, editado pelo Manel, foi apenas um pequeno passo...

O que resta hoje desta minha admiração adolescente pela banda desenhada dos jornais norte-americanos em geral e pela série Prince Valiant, em particular (a tal que o Duque de Windsor disse ser "the greatest contribution to English literature in the past hundred years")? Muito pouco, para dizer a verdade... Continuo, por inércia, a ter o fetiche das reedições, desde que estas sejam feitas de acordo com os mais rigorosos critérios filológicos e continuo a achar valor, técnico, poético, estético e, até, filosófico, numa pequena franja, mas, como disse neste mesmo blogue, algo falha, mesmo nos melhores exemplos... Algo que ligue estas produções artesanais, com estruturas industriais por detrás, ao que somos, à nossa condição. Isto acontece porque os jornais já se encontram suficientemente cheios de horrores para, ainda por cima, sobrecarregarem os leitores, numa secção, os comics, dedicada à evasão, com mais problemas e dilemas. Foi esta limitação, fatal ao aparecimento da grande arte, que não permitiu a estes autores, alguns verdadeiramente brilhantes, realizarem um potencial que, nunca o saberemos com certeza, provavelmente tinham...

Saturday, September 5, 2020

Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 2 - Carl Barks

 

Uncle Scrroge #69 (Maio de 1967)

Tal como aconteceu a milhões de leitores de banda desenhada Disney, vulgo, em Portugal, "patinhas", diverti-me, naqueles já longínquos anos de 1960, com as histórias criadas por Carl Barks. 

Muitos trabalhadores da indústria cultural eram anónimos e tanto mais foi assim quanto mais recuarmos na história, quer falemos da arte de massas contemporânea quer dos oficiais de Rembrandt. Apesar disso, leitores com mais sentido crítico do que a criança, a aproximar-se dos dez anos de idade, que eu era, perceberam que havia histórias publicadas sob a chancela "Disney" que eram diferentes de todas as outras. Sem terem maneira de saber quem era o autor, chamaram-lhe, "o bom artista".  

Abro aqui um parêntesis retórico para acrescentar alguma nuance ao que escrevi acima: não é bem o sentido crítico que está em causa; uma criança não racionaliza o que consome e é-lhe bem indiferente quem criou ou deixou de criar seja o que for. Há até relatos de leitores que se lembram de, muitos anos depois, descobrirem que havia uma mão humana por detrás dos desenhos que tinham admirado. Talvez a magia actuasse aqui de forma tão misteriosa como é, para mim, neste exacto momento, toda a tecnologia necessária à criação e difusão do que estou a escrever.

Lembro-me, mas será mesmo verdade?, de uma encadernação de tipo tijolo, cartonada e com capas verdes, de lombada arredondada e, provavelmente, algumas letras gravadas, no lombo e/ou na capa. Lembro-me de estar sentado numa cadeira baixa em frente ao lume de chão com a antologia apoiada nos joelhos enquanto o vento me trazia o som, que agora se me afigura algo fantasmático, do apito do comboio, não  sei se com locomotiva a vapor, se já a diesel, nesses anos de Planos de Fomento.


Uncle Scrroge #69 (Maio de 1967)

Provavelmente vou ligar memórias diferentes, até porque, na vinheta acima, também se vê uma locomotiva, mas recordo uma sensação estranha de familiaridade e reconhecimento quando reli (só pode...) a história de Carl Barks "The Cattle King". À conta disso estive tentado a comprar o comic book que a contém a um dos dealers presentes no festival de banda desenhada de Nova Iorque, mas, na altura, meados dos anos de 1990, a especulação no mercado dos floppies de segunda mão já fazia estragos. Foi só anos mais tarde, para dar outro salto temporal que, graças ao eBay o adquiri, finalmente... Hoje voltei a folheá-lo e a sensação desvaneceu-se, ou seja, já não sou aquelas duas pessoas, o que encontrou e o que reencontrou, que fui no século passado.


Nemo #10, Fevereiro de 1992

Para além de um par de resenhas curtas, escrevi três vezes sobre Carl Barks. Na primeira, acima, ainda segui a estrutura típica dos textos integrados na sub-cultura ou, para usar uma designação alternativa, naquilo a que podemos chamar, o fandom. Comecei com a descrição de um episódio banal, passei à formação do barksdom e, finalmente, cheguei onde todos estes textos pretendem chegar: à hagiografia. Ainda assim considero que o artigo não é completamente desprovido de valor porque, por entre dados biográficos, fiz um paralelismo com a obra de John Ford e alinhavei algumas características das personagens e da mundividência de Carl Barks. Deve ser também o único texto meu em que aparece a expressão, com a coisa ainda vigente, "União Soviética".

Nemo #25, Junho de 1997

O segundo texto (acima), escrito cinco anos depois, como se vê, é de um fôlego completamente diferente e surpreende-me, ao relê-lo agora, o quanto, na altura, estava metido na obra barksiana.  O calcanhar de Aquiles é a descrição, mais ou menos pormenorizada, do enredo de várias histórias que considerei chave para o entendimento da ideologia, de raiz rural, seja lá isso o que for, que está por detrás de várias aventuras de Carl Barks, sobretudo aquelas em que o Tio Patinhas é protagonista.

O meu terceiro texto sobre Carl Barks pode ler-se aqui. Foi publicado no blogue de Noah Berlatsky, The Hooded Utilitarian em 3 de Janeiro de 2012. A intenção era escrever uma crítica à The Complete Carl Barks Disney Library da editora Fantagraphics, sobretudo à maneira imprópria, na minha opinião, como as histórias foram recoloridas. Apesar disso, a certa altura dá-se uma mutação e passo, com recurso a várias citações, a defender sobretudo o Barks satírico assim como a encarar o "elephant in the room": as representações racistas e a menorização dos povos do terceiro mundo, tal como denunciada por Dorfman e Mattelart. 

O que representa Barks para mim, hoje? Não está na lista dos meus autores favoritos, mas isso não quer dizer nada. Estas listas mudam ao favor do vento, por assim dizer e só me dei ao trabalho de a elaborar, confessando, ao mesmo tempo, a minha impotência perante a tarefa gigantesca de reler tudo e, lá está, não confiar na réstia de memória de leituras, por vezes, muito longínquas, para manifestar uma filosofia diametralmente oposta à que está por detrás de todas (e são mesmo todas, não exagero um milímetro) as listas semelhantes, em papel ou que circulam na Internet. Talvez esteja neste carácter militante, que presidiu também à criação deste blogue, a explicação para a exclusão, por inconsciente que fosse, de Carl Barks, um autor comercial (e todos o tentam ser, bem sei...). Ainda assim, o meu propósito, no já recuado ano de 2008, quando The Crib Sheet começou o seu percurso, era terminar com um post sobre ele, como que a redimir, de algum modo, os muitos ataques aqui feitos à indústria, em nome da arte.

PS Se tiverem pachorra, e acho que ninguém vai ter, como até digo no link, leiam aqui o texto do meu amigo Matthias e a minha discussão acalorada com o muito saudoso Kim Thompson (e acólitos), a worthy opponent if I ever knew one. Parafraseando o título do post, parece-me que a Fantagraphics também esteve algo lost nesta ocasião.