Wednesday, November 25, 2020

Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 11 - John Porcellino

 


John Porcellino, King-Cat Comics & Stories #38, Março de 1993

Esta série de posts devia ter como subtítulo "Memórias de um Desmemoriado". Isto porque, hoje, não faço ideia de como me foi parar às mãos, em 1995 ou 1996, suponho, um obscuro mini-comic, fanzine, se diz por aqui, editado em Denver, Colorado, nos Estados Unidos da América. Devo, talvez, ter lido a entrevista ao autor, John Porcellino, no prozine Destroy All Comics #3, de Agosto de 1995, cuja capa se pode ver abaixo. Daí a enviar para Denver, por snail mail, uns quantos dólares num envelope, devidamente acomodados em papel químico, note-.se, nesses tempos, antes do home banking e de outras modernices do género como o Paypal, foi um pequeno passo. O que é curioso é que, hoje, o papel químico é já uma memória longínqua. Acrescento ainda que a alternativa a este processo expedito era entupir a sucursal bancária com transferências que levavam uma eternidade a finalizar. A revista, essa, devo tê-la adquirido através da livraria Linhares, ali para os lados da Praça da Alegria onde tinha inúmeros standing orders escolhidos, junto com obras avulso, nos catálogos Advance Comics, cujo CEO, John Davis, conheci em Nova Iorque, e Previews. O encontro com John Davis deu-se uns meros meses antes da sua distribuidora, a Capital ter sido adquirida pela rival, a Diamond de Steve Geppi (editora da Previews).
 

John Porcellino, Destroy All Comics #3, Agosto de 1995

Mas deixemos os milhões da distribuição para voltar aos tostões da autoedição, mais concretamente ao modesto fanzine King-Cat Comics & Stories de John Porcellino. O que me impressionou imediatamente foi a poesia de certos momentos contemplativos de que se pode ver abaixo um exemplo, retirado de Destroy All Comics:


John Porcellino, "Leaves", King-Cat Comics & Stories #37, Novembro de 1992

King-Cat começou por ser uma série saída do espírito DIY (do it yourself), típico do movimento punk. Ao tentar recuperar, com alguns anos de atraso, todos os números que pude (não podia saber que só foram impressos dezassete exemplares do #1) só consegui chegar ao número 27, a um par na dezena de 30 e a quase todos daí em diante para estar, agora, a algumas semanas de receber o #80. Ainda assim há, sobretudo no #27, com Racky Racoon a destruir or discos de Whitney Houston, um desenho deskilled em extremo e uma anarquia que desapareceria com o tempo para ser substituída por uma expressão gráfica simplificada, sim, mas de onde se desprende uma poesia zen em haikus delicados de fina melancolia.


John Porcellino, King-Cat Comix & Stories #27, Junho de 1991
Racky Racoon destroi os discos de Whitney Houston.

Sobre John Porcellino só escrevi este post. Pena que já não tenha o link para os resultados do projecto de Komar & Melamid que refiro nos comentários, mas podem encontrar-se referências aqui. A depuração do estilo gráfico de John Porcellino, com a adição raríssima e feliz da cor, neste caso, pode ver-se na imagem abaixo:


John Porcellino, King-Cat Comics, Setembro de 1998
Capa de uma antologia da obra de John Porcellino publicada pela editora alemã Reprodukt.

Fiz duas comissions  a John Porcellino que podem ver-se, em baixo. Lamento agora não me ter lembrado da prancha "Leaves", mas são tantas as hipóteses de escolha que me foi difícil seleccionar duas:


Esquerda: "13 Stars", King-Cat Comics & Stories #38, Março de 1993
Direita: "Pingree Grove", King-Cat Comics & Stories #62, Agosto de 2003.

Perfect Example é uma recolha de episódios pré-publicados em King-Cat Comics & Stories. Relata, em género autobiográfico e com a sensibilidade que se reconhece a John Porcellino, acontecimentos da transição entre o fim da juventude e a idade adulta, já com um pé na universidade. Conforme se pode ver abaixo, a narração interior, o drama psicológico, em suma, a depressão resultante de frustrações sentimentais, magistralmente expressas, eestão no centro do livro o qual, a meu ver, termina numa nota positiva, upbeat, que destoa do que ficou para trás... 


John Porcellino: vinheta promocional por parte da editora Highwater Books do livro Perfect Example cuja capa se reproduz abaixo:


John Porcellino, Perfect Example, Março de 2000

Raramente me emocionei ao ler um livro de banda desenhada, mas isso foi o que me aconteceu no dia em que li o mini-comic King-Cat Comics & Stories #38 (cuja capa encima este post), mais propriamente ao ler a história "Sam". Testemunho de que assim foi é o texto que escrevi uns anos mais tarde, suponho, nesta cronologia muito incerta, e que reproduzo abaixo (foi publicado na mailing list comix@ no dia 23 de Junho de 1998). Alguém disse, a propósito do meu texto, que as histórias de John Porcellino são tão poéticas que até uma crítica sobre o tema pode ser contaminada pelo espírito que este lhes incute (palavras minhas, mas a ideia, se não recordo mal, era mais ou menos esta). Algo de verdade pode haver nisto, mas isso não me impediu de achar as palavras injustas. Ao fim e ao cabo uma crítica pouco mais pode ser do que algo muito paralelo à obra. Pouco mais pode ser ser do que um longínquo eco, do que um pálido reflexo. Dada esta independência entre duas realidades distintas qualquer virtude ou defeito do texto crítico só pode ser imputado ou imputada a quem escreveu e a mais ninguém:

"Sam" is a story self-published by John Porcellino in the mini-comic King-Cat Comics & Stories No. 38, dated March 1993. Sam is short for Porcellino's she-dog's name, Samantha Love. This story is about what she meant to him through her own life, his childhood, adolescence, young adult's years.
Porcellino's drawing style is what we could call minimalist: the characters are just diagrams and there's almost no backgrounds; shading doesn't exist and the lines have always the same thickness and shaky quality; there's almost no perspective (when it exists it's used with deliberate "mistakes"). King-Cat's outdoor scenes usually show a great composition sense conveying a slow pace for the little characters who wander through the sketchy, but well balanced landscapes. These melancholic panels don't appear in "Sam" though... This is an indoor and intimate story (one panel in page four is the exception). Porcellino's drawings have a roundness that conveys warmness. (Conversely, the troubled adolescent in page five has a saw-like hairdo: a symbol of rebellion as we can see in the character Calvin of Calvin & Hobbes' fame, or Bart Simpson of The Simpsons' fame.)
The characters are shown mostly as talking heads. The most elaborate compositions in the story are those in which Sam appears (Sam's the star of the show, after all). Porcellino uses an eight panel grid, the same one once used by Dell in their children's comics. This transports Western readers directly to the past, but, at the same time, gives us a regular pace (most panels have an equal, if shaky, shape) which, like the regular beat of a clock, goes on and on unto the inevitable conclusion of us all, living beings: death.
John Porcellino's writing is as simple and straightforward as his drawing style. The lettering combines capital letters and small letters in a bad-good way that, again, is in accordance with the drawings being also typical of punk aesthetics.
All through "Sam" we can see how John's love for his pet grows. During his difficult adolescent years Sam was always there for him. In the end we can understand his sorrow when she dies. A particularly deep panel is the one in which his friend of many years turns her back on him: Sam's there but, at the same time, she's not there anymore. Soon she will die of old age and old animals (the same way as old people) bid their farewells to this world way before their loved ones bid farewell to them.
One of Porcellino's poetical one pagers, 13 Stars, is an epilogue to "Sam." In it she appears as a ghost: the ghost of memory, the ghost of lost love and all lost things. So are all true works of art: ghosts that haunt us in a disturbing way. I, for one, found that reading this story was a truly haunting and marvelous experience. "Sam" is so simple and sad, and, yet, so beautiful...

Saturday, November 14, 2020

Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 10 - A Revista Raw e Lynda Barry



 Robert Crumb, Raw #3, volume 2, Junho de 1991

Para além das revistas de banda desenhada cujo público alvo eram, sobretudo, as crianças e os adolescentes, várias publicações periódicas tinham conteúdos que se dirigiam aos adultos, como a antologia norte-americana Raw (pode ver-se acima a capa do último número, já da fase Penguin Books), Drawn & Quarterly (do Canadá, como vimos no último post), Garo no Japão, Madriz em Espanha, LapinLe cheval sans tête, em França, Strapazin na Suiça e Frigobox, na Bélgica. As antologias com histórias curtas serviam de trampolim para dar a conhecer novos autores ou para divulgar os criadores de uma editora reunindo-os numa única publicação. Eram (e digo "eram" porque praticamente já não existem) também produzidas à imagem dos redactores-chefe os quais, através de um trabalho de selecção, podiam criar um todo coerente. A revista Raw foi um trabalho de curadoria revolucionário por parte de Art Spiegelman e Françoise Mouly. Desde logo porque deram um ar cosmopolita à revista, algo apropriado a Nova Iorque, onde foi publicada, mas também graças a uma estética sofisticada cujo acento tónico privilegiava a qualidade gráfica e a criatividade com a inclusão de diversos tipos de papel, um single em vinil ou, até, um pequeno saco de plástico agrafado à revista, a envolver pastilhas elásticas. Foi no interior da revista Raw que Art Spiegelman serializou, em inserts muito mais pequenos do que a própria revista, os primeiros episódios do que viria a ser o seu romance gráfico, Maus.


Art Spiegelman, Raw #1, volume 1, Outono de 1980
Ao contrário do que aconteceu na fase Penguin Books (três números), na fase Raw Books (oito números) o tamanho era enorme: Raw #1, do volume 1, tem 27 x 36 cm; Raw #1, do volume 2, tem 15 x 22,2 cm com Raw #3, do mesmo volume, a ser uns milímetros maior do que os números anteriores.


Raw #2, volume 1, Inverno de 1980
A primeiríssima aparição de "Maus" de Art Spiegelman, breakdown do que viria a ser a capa do primeiro volume do romance gráfico (mini-comic colado no interior da contracapa).

Comecei este post pela capa da antologia Raw #3, da segunda fase, porque foi nesta revista que li "The Most Obvious Question", de Lynda Barry, cuja primeira prancha se pode ver abaixo. Sobre Lynda Barry nunca escrevi nenhum artigo de fundo. Limitei-me a um post neste blogue, seguido da coda correspondente. 


Lynda Barry, Raw #3, volume 2, Junho de 1991


Tira da série "Ernie Pook's Comeek" publicada em jornais alternativos norte-americanos e incluída na colectânea Come Over Come Over cuja capa se pode ver abaixo (arte original da colecção de Suat Tong Ng). A pedofilia no seio da família é aqui abordada desde o ponto de vista das crianças. O estilo "retarded", como a própria autora o nomeou, ajuda a criar uma atmosfera creepy. Especialmente ameaçadora é a silhueta na terceira vinheta. Esta é, na minha opinião, uma das tiras mais relevantes da história da banda desenhada. Escusado será dizer que a subcultura a ignora por completo.


A colectânea Come Over Come Over, de 1990, inclui tiras de 1989 com duas excepções: uma no início, de 1988, e outra no final, do ano de publicação. 

As "casas felizes" e a explosão de cor na capa acima são criações fantasiosas das personagens Maybonne e Marlys e uma óbvia ironia por parte de Lynda Barry: o mundo das duas irmãs, retratado no interior do livro é, em contraste, não só cinzento como cruel e tudo menos feliz, embora as crianças encontrem, na sua inocência e fantasia, precisamente, o antídoto para o mundo adulto disfuncional que as rodeia  (os óculos "sorridentes" escondem os olhos em sinal de evasão, em sinal de cegueira perante o real).
Tudo isto em contraste com visões edulcoradas da infância, tão omnipresentes no caldo quente e mole da cultura kitsch e pop que nos inunda.

PS Em baixo pode ver-se a capa de outra obra importante sobre a pedofilia no seio da família:


Debbie Drechsler, Daddy's Girl, Fevereiro de 1996
Admirável uso da cor: um interior em tons quentes, com o conforto da imersão na leitura e a companhia de um gato enroscado e meio adormecido é invadido pelos tons frios que vêm da porta entreaberta.