Sunday, October 25, 2020

Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 9 - O Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto e Chester Brown

Em Fevereiro, Março de 1995 fui a Nova Iorque com José Rui Fernandes, da organização do Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, salão esse de boa memória. A ideia era ir ao Javits Center, onde decorria a New York Comics Convention (24 a 26 de Fevereiro) e convidar artistas para virem ao Salão do Mercado Ferreira Borges. Durante a viagem ficámos hospedados na comunidade, extremamente acolhedora, diga-se de passagem, portuguesa de Queens. Todos os dias nos deslocávamos à Comic Con, primeiro e a vários locais de Manhattan, torres do World Trade Center incluídas, depois. Em Queens alguém nos disse que "o filho do Madureira" fazia banda desenhada. Foi assim que visitámos o estúdio de Joe Madureira e lhe fizemos uma breve entrevista (não pôde ser maior por causa de deadlines, sempre apertados). Mas a parte do leão coube a Peter Kuper, que visitámos em casa e também entrevistámos (ambas as entrevistas ficaram registadas nas revistas Quadrado #1 e #2 da segunda série, respectivamente). Os meses passaram e, chegado a 30 de Setembro, lá fui na minha romagem bienal ao Porto. De facto, Peter Kuper e a mulher, Betty Russell, tinham sido convidados, mas... surpresa das surpresas, a editora canadiana Drawn & Quarterly tinha vindo em peso com um contingente composto por Chester Brown, Seth, Joe Matt (o trio de Toronto, embora Joe Matt seja norte-americano), o editor, Chris Oliveros, Adrian Tomine e Julie Doucet. Se acrescentar o artista catalão Max, a quem, na altura, adquiri a revista Nosotros somos los muertos (onde se inclui a história do mesmo título sobre a guerra da Bósnia), dá para perceber porque é que o salão do Porto me é "de boa memória", como escrevi acima (inesquecíveis um jantar com todos eles e outro com Chris Oliveros). Acrescento que já em 1993 tinha tido uma experiência fantástica com Colin Upton (outro canadiano), Roberta Gregory e Joe Sacco, com quem fui ao cinema ver A Woman Under The Influence de John Cassavetes, todos em representação da editora Fantagraphics. Foi nesse ano que também conheci o artista inglês, Dave McKean.


Chester Brown, 
Yummy Fur #26, Outubro de 1991

Já seguia a carreira de Chester Brown (e, já agora, também as de Seth e Joe Matt) há três anos quando conheci o autor no Porto. O primeiro livro que dele li, e que me produziu uma forte impressão, foi o número 26 da série Yummy Fur cuja capa se preproduz acima. Analisando-a, verificamos que o design é de uma simplicidade desarmante. Num toque de auto-ironia, suponho, o autor apresenta-se aos leitores com o nome inscrito numa auriflama. O título da série é uma expressão dada que não quer significar nada e o número do fascículo encontra-se à esquerda, em baixo, sem mais explicações. Até aqui tudo, mais ou menos, normal. Mas o que faz um pacote de bolachas na capa de um comic book, onde, numa lógica comercial, costumam figurar fogos-de-artifício cromáticos e exibicionismos gráficos vários, do lettering ao virtuosismo do desenho, tudo, de preferência, num turbilhão? 

Com o seu aspecto modesto esta capa continua, precisamente porque contrasta fortemente com a tradição da banda desenhada mais comercial, uma revolução. A revolução que introduziu a corrente autobiográfica na história da banda desenhada com Justin Green, Aline Kominsky, Robert Crumb, Harvey Pekar, Art Spiegelman e Yoshiharu Tsuge. Apesar de ser uma continuação e não um começo eu diria que há aqui algo de diferente, já anunciado por Harvey Pekar e que esta capa espelha muito bem: os autores alternativos são mais despojados, precisamente porque baniram completamente a ideia de espectáculo, ainda bem patente nos artistas underground. O pavor a ser aborrecido e desinteressante deixou de existir o que, em contrapartida, permitiu sátiras ferozes por parte de humoristas como Johnny Ryan.

Claro que a partir de Yummy Fur #26 não descansei até recuperar os vinte e cinco números anteriores. Chester Brown tornou-se, até hoje, um dos raros artistas de quem, por mais decepções que me dê (ou dêem), e já lá vou, leio tudo o que produzem. 

Em baixo, os três de Toronto quando ainda formavam um grupo:


Da esquerda para a direita: Seth, Joe Matt e Chester Brown: sketch feito no Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto em 1995. O braço esquerdo de Chester Brown ficou desproporcionado porque Joe Matt foi chamado por alguém, não recordo quem, mas aposto em Peter Kuper, para ir jantar e desenhou-o à pressa. Escusado será dizer que me fiz convidado...

Muito interessante foi a série de três números da revista Yummy Fur sobre a relação de Chester Brown com a revista Playboy e a série sobre as paixonetas da adolescência "Fuck", coligidas sob o título mais comercial de I Never Liked You. O primeiro título é bem mais adequado porque toca no cerne da novela gráfica (aqui, devido à extenção, não é um romance, parece-me...), ou seja, a repressão da linguagem  leva à repressão da expressão dos sentimentose, e, em última análise, à repressão do desejo (marcante é o momento em que Chester não consegue dizer à mãe, doente em estado terminal, que a ama; foi a mãe quem primeiro o inibiu de praguejar). O primeiro episódio de "Fuck" foi precisamente o que tanto me impressionou ao ler Yummy Fur #26.

Sobre Chester Brown escrevi dois artigos: um de fundo, cuja primeira página se reproduz abaixo (ligado, claro, à vinda do autor ao Porto) e outro, um breve apontamento ou observação que reproduzo mais abaixo na íntegra:


"Chester Brown a BD em carne viva", Quadrado #2, segunda série,  [Setembro] de 1995


""Pathos" Em Curva", Nemo #19, segunda série, Junho de 1994
Se pudesse apagava a introdução, como fiz aqui, repleta como está de afirmações em que, agora, não acredito. Irritante é também a mania de utilizar o acrónimo "bd", mas, ainda bem que em minúsculas; do mal, o menos... A história de Chester Brown de que se vêem duas vinhetas na figura 4 não tem título na edição original em comic book, mas aparece na colectânea The Little Man com o título de "Knock Knock". Nos encontros do ISPA, já citados noutro post, comparei essa história a um poema de Roberto Juarroz: embora em linguagens diferentes, e, estou certo, sem influências entre artista e poeta, coincidem como um par de luvas.


Chester Brown, Underwater #5, Fevereiro de 1996

A infelizmente abortada série Underwater, de que se pode ver uma capa, acima, representou uma viragem na carreira de Chester Brown. Na linha de Yummy Fur, seguia, de forma algo surrealizante, o nascimento de dois bebés gémeos, a sua progressiva apreensão do mundo e o adquirir da linguagem. Não sei se por razões comerciais se criativas, Chester Brown decidiu terminar abruptamente a série no #11. Depois disso seguiu-se, algo inesperadamente, a série histórica, que haveria de dar lugar a um romance gráfico, Louis Riel.

Suspeitei desde o início, para não dizer "tive a certeza", que Chester Brown iria, caso não abandonasse por completo a banda desenhada, como tantos outros, ter uma carreira brilhante. Não abandonou... mas devo dizer que ainda estou à espera de uma obra-prima da maturidade que, pelo menos, iguale The Playboy e I Never Liked You. Não quero com isto dizer que Louis Riel e os seus últimos livros, um deles de fôlego, Paying For It, sobre a sua relação com trabalhadoras do sexo, não têm nenhuma qualidade, longe disso. O que me desagrada neste último livro é a redução das mulheres representadas a cifras (supostamente para as proteger da exposição pública) e o olhar do autor que as reduz a corpos sem personalidade. O lado militante, a favor do comércio sexual e da clientela que o alimenta, dá ao livro um tom panfletário. Para além disso há algo de clínico e seco. Algo que, em surdina, se insinuava já no início como se comprova nos dois auto-retratos abaixo, separados no tempo por vinte e quatro anos. Do retratro da esquerda disse na Quadrado #2: "[é] uma criança que observa tudo como uma esponja hierática, silenciosa". A não representação dos olhos por detrás dos óculos é um achado formal que significa de forma genial a introversão da personagem (vai ser também  utilizado, anos depois, por Joe Sacco). Impressionante é, igualmente, a forma cadavérica como o autor se representa nos tempos mais recentes. Talvez seja esse aspecto que explica em última análise Paying For It. Um verdadeiro artista, e Chester Brown é-o dos pés à cabeça, não pode deixar de ser autêntico e dar o que não pode dar, ou fingir ser o que não é. É na infância que devemos procurar as motivações para o que a vida adulta faz de nós...


À esquerda: pormenor da capa do comic book Yummy Fur #7, Agosto de 1987
À direita: Chester Brown tal como se representa em Paying For It, Maio de 2011

Termino com duas imagens:


Recriação (Chester Brown não vende os originais) de quatro vinhetas da adaptação do evangelho de Mateus, 1998. Pormenor da exposição da minha colecção de arte original no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja de 2012 (fotografia de Machado Dias).


Anúncio a duas páginas ao extraordinário Oitavo Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, Quadrado #2, segunda série,  [Setembro] de 1995.

PS Por alturas do Salão do Porto de 1995 entrevistei Chester Brown (assim como todos os outros), entrevistas essas que, com a excepção de duas, a de Julie Doucet (que se perdeu) e a de Seth, que está em propriedade de Nuno Franco, ainda tenho, mas nunca foram publicadas. Chester Brown é um daqueles artistas que não gostam de analisar a própria obra e, portanto, segundo o que me lembro, a entrevista assemelha-se a uma conversa de surdos em que o entrevistado responde com evasivas. Quando parei o gravador, em off, como se costuma dizer, Chester Brown fez-me o melhor elogio que, enquanto crítico, recebi e disse-me que tinha compreendido perfeitamente a obra dele. Isso bastou para tornar a entrevista inútil e validar tudo o que sobre ele escrevi.

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