Tuesday, March 3, 2015

João Bénard da Costa - O Crítico


Clara Azevedo, João Bénard da Costa, Expresso - A Revista, 1 de Dezembro de 1990.

Aparentemente este post não tem nada a ver com banda desenhada. Aparentemente, digo, porque se não tem muito a ver com qualquer aspecto específico da supracitada arte (na condição altamente duvidosa de que tal exista...), tem tudo a ver com a crítica da dita.

Foi com grande regozijo que deparei (stumbled, diria no blogue The Hooded Utilitarian) com o volume três de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras de João Bénard da Costa. Quando a editora dos dois primeiros volumes, a Assírio e Alvim, de boa memória, foi vendida à Porto Editora perdi toda a esperança de ver mais crónicas de João Bénard da Costa reeditadas (e isto apesar deste conto infantil). Eppur... parece que há milagres, afinal... A Sistema Solar, editora de que nunca tinha ouvido falar, resolveu continuar a colecção da Assírio (compilação de crónicas de  2006).

João Bénard da Costa foi, intelectulmente, e de longe, a pessoa mais importante para mim. Importante porque lhe devo anos inesquecíveis enquanto frequentador assíduo da Cinemateca Portuguesa (isto nos já muito idos inícios dos anos de 1980), Importante porque lhe admirei, a par da de Erwin Panofsky, a incomensurável erudição (ou alguém acredita que se ganhou alguma coisa quando se substitiu a cultura clássica pela cultura masscult norte-americana?). Importante pela sua prosa camoniana (ou deveria antes dizer "vieiriana"?) e concetista (não é debalde que João Bénard da Costa admirava o barroco italiano), prosa essa que nunca poderia imitar porque, por um lado, o meu domínio da língua é muito limitado e porque, por outro, os meus textos mais importantes foram escritos em inglês, língua que ainda domino menos. Importante, finalmente (será?), pelo crítico que João Bénard da Costa não foi, para empregar um dos paradoxos que lhe eram caros. Os textos de João Bénard da Costa não são crítica no sentido ortodoxo do termo (no sentido que empregaríamos em relação a David Bordwell, por exemplo), mas são, com certeza, crítica no sentido mais nobre da palavra: pelo seu crivo rigorosíssimo e pelo seu entendimento dos meandros do humano espelhados nas obras. Se é isso que lhe podemos objectar nestes tempos de politicamente correcto, anti-humanismo e antiessencialismo (tudo doutrinas que também professo), é precisamente essa subjectividade que faz a sua grandeza. Um crítico objectivo, para além de não existir tal coisa, é alguém que só regista factos e isso, se faz parte, não é o todo.

E a banda desenhada, onde entra no meio disto tudo? Vou citar o próprio João Bénard da Costa a propósito de Anton Tchekov: "[...] será que em Tchekov alguma personagem é alguma vez odiosa? Não foi ele - foi Strindberg - quem disse que os homens não são maus mas também não são bons. Tchekov não seria capaz de o dizer assim com tanta rudeza. É uma surdina, surdina de maldade que acompanha todas as bondades, surdina de bondade que acompanha todas as maldades." (Crónicas: Imagens Proféticas e Outras vol. 3, 96.)

E de novo pergunto, o que é que isto tem a ver com banda desenhada? Com a má banda desenhada incensada pelos críticos da dita, tudo (pela negativa); com a boa banda desenhada geralmente desprezada pelos mesmos, tudo (pela positiva). Porque a doença que mais afecta a chamada crítica de banda desenhada é a cegueira perante o maniqueísmo. Acrescente-se a cegueira perante imagens racistas, misóginas e outras... Acrescente-se a cegueira...



Manuel Mozos, João Bénard da Costa, Outros Amarão as Coisas que Eu Amei, Rosa Filmes, 2014 (trailer).

Thursday, February 26, 2015

James Edgar


I couldn't believe my eyes! Finally someone knew some bio data about one of the true geniuses who worked in comics: UK's scriptwriter James Edgar.

Here's (please scroll down) Bob Lorenzo's comment on Steve Holland's blog Bear Alley:
Jim Edgar was born Thomas Eric Edgar on 29th August 1908 in Newton Le Willows. He lived in Kettering for most of his life but after the death of his wife Jessie in 1994 he went to live in a residential home in Sleights Whitby where he died on 4th July 1998. I am in possession of quite a lot of prints etc from "Wes Slade," "Gun Law," "Garth" and "The Boss" (a football script that Jim wrote for the Daily Express). I will email details of these to Steve.
Jim was a wonderful man who must have been one of this country's most knowledgeable people on the subject of American western history. 

Wednesday, February 25, 2015

Colecção de Romances Gráficos do Público


A primeira prancha de "Sudor Sudaca" ["Sudore Meticcio"] com dedicatória de Carlos Sampayo. Frigidaire # 19, Junho de 1982. 

O jornal Público vai editar uma colecção de doze romances gráficos, facto que se saúda. Devo acrescentar, no entanto, que, a meu ver, é mais uma ocasião perdida.

Dada a natureza deste blogue não podia deixar de redigir uma lista alternativa. A dita aqui fica:

Les soeurs Zabîme - Aristophane

Amapola Negra - Héctor Germán Oesterheld / Francisco Solano López

I Never Liked You - Chester Brown

Munô No Hito - Yoshiharu Tsuge

Matt Marriott: Isepinal The Apache - James Edgar / Tony Weare

Zil Zelub - Guido Buzzelli

Le journal de Jules Renard lu par Fred - Fred

C'était la guerre des tranchées - Jacques Tardi

Le portrait - Edmond Baudoin

Un tal Daneri - Carlos Trillo / Alberto Breccia

Sudor Sudaca - Carlos Sampayo / José Muñoz

Poderia ter escolhido outras coisas, como é evidente:   Ernie Pike de Héctor Germán Oesterheld e Hugo Pratt; Las memorias de Amorós de Felipe H. Cava e Federico del Barrio, para dar só dois exemplos... Ou... três: só poderia deixar de fora o extraordinário Journal III de Fabrice Neaud por razões práticas, ou seja, por ser tipo tijolo...

Wednesday, January 28, 2015

The 40th Anniversary of Alack Sinner

Comics scholarship is sorely missing positive data about lots of things... For instance, where and when do you think that "Alack Sinner," by José Muñoz and Carlos Sampayo, was published for the first time? I asked the question myself and I found the answer, but I would love to see a complete bibliography of the series complex publishing history.


José Muñoz (a), Carlos Sampayo (w), "Il caso Webster" [the Webster case], Alterlinus year 2, # 1, January 1975. Yup! The very first Alack Sinner page was published in Italy exactly forty years ago. The above page was signed by Carlos Sampayo for yours truly. 1974 is the year in which Carlos wrote the script (...and José drew the story, of course). 


José Muñoz (a), Carlos Sampayo (w), Perché lo fai, Alack Sinner? [why do you do it, Alack Sinner?], Milano Libri, 1976. The first book, also signed by Carlos Sampayo (below: "1 er libro" [first book]). The authors are (left: José Muñoz; right: Carlos Sampayo) behind their character.



Friday, January 23, 2015

Another Hugo Pratt Li... Er... Mystification or Ernie Pike - Coda # 6 - A Revisionist Take

I was unfair to Hugo Pratt this time, methinks...

Let's look at those images again:



There are two ways of reading the prep drawing above: 1) the soldiers are returning to the rear from the battlefield (they are haunted by all the death that they've witnessed); 2) they are going to the battlefront, being obvious cannon fodder. Judging from the cover of Hora Cero # 1 below I would say that reading # 1 is the correct one, but, maybe the editors feared reading # 2?


On the other hand what was published has a dubious meaning as well. If we compare the two photos below it seems to me that it's safe to say that the dead soldiers are German soldiers (photo 1.), not North-American soldiers (photo 2.): notice the boots... What is the American soldier's skull ominously doing above all that destruction and death, then? Beats me, to be honest. Is it there to indicate that the Americans did it? Isn't that a bit redundant? Would it be a lot different if the Red Army did it instead? Is it there to indicate that American soldiers died too? As I put it above: who knows?... 


1.


2.

Tuesday, January 13, 2015

A Maneira Como a Agência Portuguesa de Revistas Publicou Banda Desenhada Durante Anos

No dia 24 de Outubro de 2014 coloquei algumas páginas da revista Misterix # 715 neste blogue. Escandalizei-me, na altura, com a maneira como as edições Colihue, anos depois, dividiram uma vinheta da série "Mort Cinder" em duas, mas parece-me que o editor argentino era um amador, no que ao destruir vinhetas diz respeito, se o compararmos com a Agência Portuguesa de Revistas. Abaixo podemos ver a prancha da série "Garrett" que publiquei no dia 24 bem assim como a página seguinte.



Arturo del Castillo (d), Eugenio Zapprieto (e), "Garrett: Dia negro en West Fork", Misterix # 715, 27 de Julho de 1962.

Segue-se a maneira como as duas pranchas (com a excepção de três vinhetas) foram publicadas em Portugal:


Arturo del Castillo (d), Eugenio Zapprieto (e), "Garrett: Dia Negro Em West Fork", Selecções Mundo de Aventuras # 56, 10 de Novembro de 1965.

Para além da proverbial sigla dos Combóios Portugueses (a esconder uma parte importante da última vinheta), e dos ubíquos tipos mecânicos, há ainda a considerar que nada menos do que duas (!) vinhetas foram "multiplicadas" por dois. A qualidade da impressão original não é nada de especial, claro, mas na edição portuguesa tudo se torna tão esborratado e minúsculo que é difícil distinguir pormenores no desenho. 

Por entre encolhimentos e esticanços nada melhora nas páginas seguintes, antes pelo contrário. Aliás, para quê preocupações de qualidade? Para dar pérolas a porcos? Imagino também que o cachet auferido por quem fazia tamanhas aldrabices não motivava propriamente a fazer melhor...

Wednesday, January 7, 2015

Adieu Monsieur Wolinski


Georges Wolinski in 2011 (photo by Jean-Frédéric).

The Crib is in mourning again. As you all know three Islamic fundamentalists killed twelve people in an attack on Charlie Hebdo's office In Paris. Among them there's Georges Wolinski who's important for this blog as the managing editor of Charlie Mensuel. It was in Charlie (the French version of the Italian Linus - both titles are the names of two "Peanuts" characters, of course) that he introduced Guido Buzzelli's oeuvre to the French comics readers. Legend has it that while spending his honeymoon in Italy he discovered Buzzelli's "La rivolta dei racchi" in Psyco magazine (# 6, September 1970). This story made such an impression in Wolinski that Buzzelli would be one of the most important creators to be published in Charlie during the 1970s. Not only that, though, Wolinski's editor's nose was impeccable. He also published Héctor Gerrmán Oesterheld's and Alberto Breccia's "El Eternauta" (as "L'Eternaute," issues 55 to 57 - August - October 1973) and Tardi's very important "La bascule à Charlot" (issue # 91, August 1976) among other things by Reiser, José Muñoz and Carlos Sampayo, Feiffer, Copi, Alex Barbier, etc...


Guido Buzzelli, Charlie Mensuel # 55, August 1973.


Gébé (Georges Blondeaux) and Georges Wolinski, advertisement for Charlie Hebdo magazine, Charlie Mensuel # 106, November 1977.


PS One more thing: I don't agree with Charlie Hebdo's editorial policy, but today is not the right moment to discuss that.