Em Fevereiro, Março de 1995 fui a Nova Iorque com José Rui Fernandes, da organização do Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, salão esse de boa memória. A ideia era ir ao Javits Center, onde decorria a New York Comics Convention (24 a 26 de Fevereiro) e convidar artistas para virem ao Salão do Mercado Ferreira Borges. Durante a viagem ficámos hospedados na comunidade, extremamente acolhedora, diga-se de passagem, portuguesa de Queens. Todos os dias nos deslocávamos à Comic Con, primeiro e a vários locais de Manhattan, torres do World Trade Center incluídas, depois. Em Queens alguém nos disse que "o filho do Madureira" fazia banda desenhada. Foi assim que visitámos o estúdio de Joe Madureira e lhe fizemos uma breve entrevista (não pôde ser maior por causa de deadlines, sempre apertados). Mas a parte do leão coube a Peter Kuper, que visitámos em casa e também entrevistámos (ambas as entrevistas ficaram registadas nas revistas Quadrado #1 e #2 da segunda série, respectivamente). Os meses passaram e, chegado a 30 de Setembro, lá fui na minha romagem bienal ao Porto. De facto, Peter Kuper e a mulher, Betty Russell, tinham sido convidados, mas... surpresa das surpresas, a editora canadiana Drawn & Quarterly tinha vindo em peso com um contingente composto por Chester Brown, Seth, Joe Matt (o trio de Toronto, embora Joe Matt seja norte-americano), o editor, Chris Oliveros, Adrian Tomine e Julie Doucet. Se acrescentar o artista catalão Max, a quem, na altura, adquiri a revista Nosotros somos los muertos (onde se inclui a história do mesmo título sobre a guerra da Bósnia), dá para perceber porque é que o salão do Porto me é "de boa memória", como escrevi acima (inesquecíveis um jantar com todos eles e outro com Chris Oliveros). Acrescento que já em 1993 tinha tido uma experiência fantástica com Colin Upton (outro canadiano), Roberta Gregory e Joe Sacco, com quem fui ao cinema ver A Woman Under The Influence de John Cassavetes, todos em representação da editora Fantagraphics. Foi nesse ano que também conheci o artista inglês, Dave McKean.
Sunday, October 25, 2020
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 9 - O Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto e Chester Brown
Tuesday, October 20, 2020
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 8 - O Advento do Crítico e Fred
Depois de uma década em que pouco liguei à banda desenhada (anos de faculdade, de serviço militar, de retoma da vida civíl), o ano de 1991 foi importante nesta estória porque foi quando passei de simples e anónimo leitor a crítico. Poderia ressalvar que escrevo estes posts desde o ponto de vista do primeiro e não desde o ponto de vista do segundo, e até poderia ser essa a intenção, mas, por mais que tente, não consigo separar completamente as putativas e esquizofrénicas entidades. Ao olhar para trás vejo quão imatura e fundamentalmente acrítica foi a minha posição de leitor omnívoro nos quase trinta anos que, em 1991, tinha deixado para trás. É também verdade, no entanto, que um olhar crítico mais exigente não se formou, numa epifania, logo nesse ano. Segundo me lembro houve dois momentos importantes que fizeram a diferença: no primeiro, em data que não consigo precisar, questionei-me se fazia sentido gostar ao mesmo tempo, e por igual, de Rembrandt e Batman, de Tchekov e Astérix (?). Quanto ao segundo momento, tem data e local: O Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) no dia 14 de Dezembro de 1994. Foi aí, nos Encontros de Psicologia e Arte - "O Sentir e o Sentido", em que participei com Rui Zink e Nuno Artur Silva, que queimei as pontes com aqueles a quem chamei, muito mais tarde, aquando do caso Casa Pia (eu e a Teresa Câmara Pestana, qual de nós primeiro, para mim, não importa e suponho que o neologismo se explica a sí próprio), os bedófilos. Nessa tarde noite saí do instituto e fui jantar com o Miguel Falcato Alves. Já não sei qual dos dois o disse, mas se um o disse, o outro concordou: tinha acabado de me auto-excluir da comunidade que perfilha e integra a subcultura. Assim foi. Assim ainda é.
Pode ser que venham aí mais ocasiões para falar do meu, então, novo papel. Por agora vou apenas citar um dos meus críticos de banda desenhada favoritos, Bruno Lecigne:
Havia, antigamente, uma verdadeira fronteira, uma verdadeira linha de demarcação, entre o que era "cultural" e o que não era. Essa linha já não existe ou, em todo o caso, já não existe muito. [...] De uma maneira geral, tudo o que era arte menor ou subcultura, como se dizia [e ainda digo, exclamo en passant], integra-se hoje muito bem numa produção e consumo globalizados de "bens culturais" ou de "conteúdos culturais". [...] Há uma abertura que é um pouco a abertura por que nos batemos, mas a contrapartida, que não estava prevista, é que tudo se iguala. [...] Há uma moleza generalizada [em que] tudo flutua de barriga para o ar, sem determinação, sem definição. Penso que os grandes antagonismos já não existem. A banda desenhada [...] ganhou o seu combate cultural num momento em que o sentido deste conceito se encontra em perda.
Lecigne proferiu as afirmações acima numa entrevista conduzida por Christian Rosset e Jean-Christophe Menu e publicada na revista l'éprouvette 3, em 2006. Catorze anos depois nada mudou. Que alguém se intitule crítico no mundo de hoje é o mesmo que dizer-se aguadeiro ou limpa-chaminés. Num ponto discordo de Bruno Lecigne, no entanto: não foi a banda desenhada que ganhou a batalha cultural, foi a cultura que perdeu a batalha contra o dumbing down ou, no contexto português, contra o pimba. Consequência disso: é o pimba da banda desenhada que é incensado, com tudo o resto, esquecendo-se, com raras excepções, evidentemente, o que deveria ser reconhecido.
Palmier, arbre absalonien, aux cheveux de poète idéaliste.
L'accent circonflexe est l'hirondelle de l'écriture.
E outro ainda (21 de Julho de 1903):
Coccinelle: une petite tortue qui toute à coup s'envole.
Wednesday, October 7, 2020
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 7 - Daredevil
Os super-heróis da minha juventude tinham cães vestidos com capas e máscaras! É óbvio que não representavam mais nada para além do poder da imaginação. Eu vejo os super-heróis actuais como o centro de uma evasão sem sal… Até entendo o desejo de fazer a infância durar para sempre, mas isso é impossível. Não há nada de errado em gostar deste ou daquele super-herói, mas ninguém tem de conviver com eles a vida inteira, como se fossem uma espécie de armadura mágica.
Tentei [ver filmes de super-heróis,] [...] [m]as não são cinema. Honestamente, o que mais se lhes aproxima, apesar de bem feitos, com os actores a fazer o melhor que podem, dadas as circunstâncias, são os parques temáticos. Não é o cinema de um ser humano a tentar comunicar emoções e experiências psicológicas a outro ser humano.
My thoughts exactly!...
Thursday, October 1, 2020
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 6 - Héctor Germán Oesterheld e Hugo Pratt
Sunday, September 27, 2020
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 5 - Guido Buzzelli
O ponto não está tanto em sublinhar os modos de refazer as categorias tradicionais em Buzzelli, mas na recusa das próprias categorias tendo em vista uma nova concepção da banda desenhada.
Escrever isto, em cima do acontecimento (em 1967!), revela uma clarividência muito próxima do milagre; mas há mais: Mario Bologna continua e explica como as estruturas narrativas (leio Vladimir Propp nas entrelinhas) são radicalmente diferentes e como a realidade (ou a ideologia, se, pela minha parte, quiser ser mais preciso) aparece em surdina enquanto que "Para Buzzelli, pelo contrário, a realidade é ponto de partida e ponto de chegada". Brilhante, simplesmente, brilhante!...
Guido Buzzelli foi céptico e pessimista politicamente numa época em que a esquerda mais impôs, um pouco por todo o lado, ideias de revolução e de "Maios de 68". Foi um desenhador ímpar que utilizou o seu meio de eleição, a banda desenhada, para enfrentar e dar corpo aos seus fantasmas, ou, como disse o próprio, às suas "dúvidas e medos". Não vou insistir em caminhos críticos já trilhados por mim e por outros; vou antes terminar este post com algo que, parece-me, nunca foi dito: Guido Buzzelli tinha um pensamento visual simbólico. Provou-o ao criar as suas quimeras e alegorias (o Agnone, por exemplo). É dessa forma que temos de descodificar as estátuas que pontuam a sua obra. Só desse modo se entendem: não há objecto mais alegórico do que uma estátua num local público:
Passaggio pedonale, 1991
No quadro acima, que esteve presente na exposição do Palácio Galveias e em que Grazia Buzzelli viu uma manifestação do bulício da vida (foi o que me disse, na altura), eu vejo algo de mais sinistro: peões cabisbaixos e apressados andam, como marionetas, sob o comando de bonecreiros representados pelas estátuas as quais, aqui, são tudo menos decadentes. E lá estão o condottiere e o anjo, duas faces da mesma moeda. O facto de estarem à direita (o militarismo) e à esquerda (as boas intenções; lobos com pele de cordeiro) significa que não há saída para a rat race.
À maneira de pós-scriptum ainda proponho mais uma ilustração de Guido Buzzelli. Fica aqui como homenagem ao fundador da Editorial Presença, Francisco da Conceição Espadinha:
Violon dans le métro, 1981
Tuesday, September 22, 2020
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 4 - Matt Marriott
Mundo de Aventuras Nº 30 V Série [segunda série], 25 de Abril de 1974
Deveria talvez começar este post de outra forma, com uma imagem diferente a encimá-lo, por uma ponta diferente do novelo, mas a tentação foi mais forte. Se fosse necessário, e estou certo de que não é, chamaria a atenção de quem lê para a data na capa da publicação acima: 25 de Abril de 1974.
Nesse dia os portugueses tinham, certamente, preocupações bem distantes do consumo de banda desenhada. Esse tempo foi, para os que tinham acordo de si na altura, o da tomada de consciência de que tudo iria mudar. Felizmente a terra, para aludir ao título em epígrafe, durante o ano e meio conturbado que se seguiu, não foi tão selvagem como podia ter sido (e algumas mortes, mesmo assim, há a lamentar, mesmo para além do tal Verão Quente).
Leitor assíduo da revista Mundo de Aventuras a personagem Matt Marriott não me era estranha. Nestes meados da década de 1970, no entanto, sob a batuta de Vitoriano Rosa, e agradeço a Jorge Magalhães o seu comentário esclarecedor neste mesmo blogue, a revista sofreu uma lavagem de cara radical. Passou de uma publicação em que se podem encontrar todas as modalidades possíveis de desrespeito pelo material publicado a uma revista, pelo menos, normal...
A série inglesa dos jornais, "Matt Marriott", publicada mais exactamente no jornal The Evening News, de Londres, entre 1955 e 1977, escrita por James Edgar e desenhada por Tony Weare, atraiu-me desde o princípio pelo desenho muito próprio, aparentemente descuidado do desenhador. A este propósito pode ver-se em baixo uma prancha de outro artista inglês que sempre admirei pela mesma razão. Trata-se de um estilo que, tal como o de Arturo del Castillo, que vimos no post anterior, muito deve às técnicas de xilogravura de topo, comuns nos jornais e revistas do virar dos séculos XIX e XX. A diferença dos ingleses para o chileno é que estes tinham um estilo muito mais solto. Foi precisamente este contraste entre precisão e dinamismo que me atraiu e me atrai ainda (posso também citar o estilo de outro natural das Ilhas Britânicas, Eddie Campbell).
O Western, ou género do Oeste, muito em voga na cultura de massas entre as décadas de 1940 e 1960 (com a década seguinte ainda vigente, mas a decair), ao mesmo tempo que vendeu muito foi extremamente maltratado na banda desenhada. Para se fazer uma ideia de como foi popular, as revistas de banda desenhada baratas eram conhecidas genericamente, em Portugal, por "livros de cobóis". Mas digo "maltratado" porque o género, tal como o dos super-heróis, aliás, prestava-se às mil maravilhas ao maniqueísmo do macho alfa que tudo resolve, contra tudo e contra todos, na luta do bem contra o mal. Talvez seja por isso que Matt Marriott, ao apresentar personagens e situações complexas, se destaca, com a ressalva de uma ou outra excepção, de entre todos os outros Westerns da banda desenhada.
Um dos primeiros a reconhecer e a explanar essa diferença no papel, preto no branco, foi José de Matos-Cruz. Cito um excerto de um dos seus textos (Antologia da BD Clássica nº 20, 1988. pág. 2):
Existe em Matt Marriott desde logo, uma densidade dramática jamais superada, neste género de histórias. Notável ao nível da progressão, na breve incidência das peripécias patéticas, na caracterização contraditória e humana das várias personagens. Quer tomando a série no conjunto, onde deparamos uma penetrante toada odisseica; quer apreciando um simples episódio, com toda a sucessão e carga de conflitos que se agudizam, até uma inevitabilidade trágica, sentimo-nos embargados pela opressão e cruel determinismo que ronda todos os participantes em cada aventura.
Pela minha parte escrevi introduções para um par de reedições recentes de Manuel Caldas, vários textos na Internet, neste blogue inclusive e um artigo de fundo, de que se pode ver abaixo a primeira página:
Wednesday, September 9, 2020
Momentos Marcantes na Vida de Um Leitor de Banda Desenhada - 3 - O Príncipe Valente
Não tenho um local ou episódio específicos para relatar, mas muito me ligou, nos anos de adolescente, jovem adulto, e, até, não tão jovem ao Prince Valiant de Harold R. Foster. Recordo sobretudo a prancha dezanove; essa chegada a Camelot que tanto fascina o jovem príncipe e que se pode ver, abaixo, num restauro de Manuel Caldas, o maior especialista mundial da série.


















